Entre as páginas do nordeste
Com impactos desde o séc. XVII, obras literárias e seus autores contam as histórias que levam a região para o resto do país
Por Ana Carolina Tomé, Ana Milena Rocha, Danielle Reis, Giovanna Cunha e Ícaro Santos.
Desde os primórdios da cultura brasileira, o Nordeste se mostrou uma verdadeira fonte de inspiração. Lugar de origem de muitas lendas e lar de grandes nomes como Gregório de Matos, a literatura nordestina deixou um grande legado para o país.
Entretanto, do Brasil colônia até a modernidade muita coisa mudou e com a literatura não foi diferente. Com a chegada das novas gerações e o avanço da sociedade, um elitismo regional passou a dominar, deixando partes do Brasil de fora do destaque midiático.
Mas se engana quem pensa que o Nordeste não mais nos presenteia com grandes autores. É sobre isso que iremos falar nessa reportagem. Passaremos pelo início de tudo até a modernidade, dos clássicos à atualidade, mostrando que a literatura nordestina segue mais viva do que nunca.
Seja por meio independentes ou em grandes editoras, os autores que compõem a maior região do Brasil se empenham em suas produções utilizando como plano de fundo características regionais desses nove Estados. O catálogo de opções é extenso, passa desde fantasias indo até romance, o grande público pode não conhecer parte dos autores promissores que temos, mas eles continuam compondo suas próprias histórias
Os primeiros capítulos
A literatura brasileira possui clássicos de grande importância em distintos formatos que foram surgindo com o passar do tempo. Foram diversos nomes responsáveis por tornarem suas obras verdadeiras fontes de discurso e divulgação da arte contemporânea produzida no Nordeste. No final do século XVII, durante o período colonial por exemplo, o barroco teve uma grande importância artística e cultural no Brasil, e deixou legados na arquitetura, na pintura, e na literatura, que podemos presenciar até os dias atuais.
Essa tendência teve um marco inicial com o poema de Bento Teixeira (1561-1618), Prosopopeia, em que o artista nas 94 estrofes exalta o terceiro donatário da capitania de Pernambuco, o transformando em um dos autores mais importantes deste período. Gregório de Matos (1633-1696), considerado um dos maiores poetas do Barroco no Brasil, foi outro destaque. Ficou conhecido como “Boca do Inferno” por utilizar um estilo irônico nas suas poesias religiosa lírica, satírica e erótica. O frade franciscano Manuel da Santa Maria de Itaparica (1704-1768) também foi um dos principais nomes que marcaram essa época, ele ganhou relevância na poesia barroca com suas obras “Eustáquios” e “Descrição da Ilha de Itaparica” que fazem a descrição do inferno e a destruição de Jerusalém.
Literatura de Cordel
Foi em Portugal nos séculos XII e XIII que o cordel surgiu, se popularizando pelo povo através da exposição dos papéis pendurados em cordas ou cordéis, como são chamadas em Portugal. Com o surgimento de métodos de impressão em larga escala no período da renascença, se tornou possível a distribuição da palavra, que era apenas cantada. A literatura de cordel se tornou uma forma tradicional de narrativa no Nordeste brasileiro, sendo, há algumas décadas, uma propagadora das tradições dessas regiões.
Sua origem vem dos trovadores medievais e da Renascença, que, com a possibilidade de imprimir em grande escala, criaram não só os cordéis, como deram início à imprensa. Foi através dos colonizadores que o cordel chegou ao Brasil, e até os dias atuais são considerados importantes para a preservação e incentivo a leitura e preservação dos costumes regionais. No geral, os textos são rimados por virem de histórias cantadas por tradicionais violeiros do Nordeste brasileiro. Também é conhecida pelas xilogravuras, que ilustram as páginas, uma técnica muito usada, que possibilita o desenho ser impresso diversas vezes. Leandro Gomes de Barros o primeiro a escrever cordéis no Brasil e João Martins de Athayde conhecido por utilizar imagens de artistas de Hollywood em seus cordéis foram os principais autores deste período.
Modernismo brasileiro
Dividido em três diferentes fases: a primeira fase modernista, conhecida como fase heroica, a segunda representada pela poesia e pelo romance do ano de 1930, e a terceira (pós-moderno), conhecida como a geração de 45. Rachel de Queiroz foi uma das mais importantes escritoras brasileiras que pertenceu à geração modernista, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. O livro O quinze, é o mais famoso romance da autora. Na obra o leitor conhece a história de Chico Bento e sua família, um grupo que resolve sair do Ceará para fugir da seca em 1915. João Cabral de Melo (1920 - 1999) outro autor, foi um dos poetas da Geração de 45, seus livros apresentam uma poesia de difícil compreensão, mas foi com a obra Morte e Vida Severina, que o autor foi consagrado. Um terceiro nome de muita importância no modernismo foi Jorge Amado (1912-2001) considerado um dos maiores representantes da ficção regionalista que marcou a segunda fase modernista. Sua obra é fundamentada em expor e analisar de forma realista os cenários rurais e urbanos do Estado da Bahia, um exemplo muito famoso é Capitães da Areia.
A nova geração se amostra
No século XXI, a literatura do Nordeste ainda faz parte da história brasileira. Cida Pedrosa, autora de Solo para Vialejo, livro de poesia vencedor do prêmio Jabuti em 2020; Socorro Acioli, autora de A Cabeça do Santo, que mescla a ficção com os ambientes nordestinos; Itamar Vieira Jr, autor de Torto Arado, um romance que se passa no sertão baiano, se tornam referências na hora de representar suas origens e tradições e inspiram, por meio de palavras, a nova geração de escritores.



Esta nova onda de escritores carrega nomes como Pedro Rhuas, autor do livro Enquanto eu não te encontro, e Luiza de Souza, a Ilustralu, autora de Arlindo, ambos publicados pela editora Seguinte. Porém, a nova geração nem sempre é revelada através das grandes editoras, como é o caso do autor Pablo Praxedes, que publicou suas obras A Poção do Amor e A Botija do Fantasma de maneira independente através da plataforma Amazon.
Praxedes conta que apesar dos desafios com a publicação, se sente satisfeito em compartilhar as histórias com inúmeras pessoas e se orgulha em carregar consigo a história de seu local de nascimento. Confira a entrevista abaixo:
Como foi possível ver, o nordeste fez e faz parte de diversos movimentos literários. Nesse meio de pura criatividade surge um novo movimento chamado de Sertãopunk que foca em representar a cultura nordestina na ficção, dando destaque a diversidade da Região. Alan de Sá é um dos autores do livro Sertãopunk: Histórias de um Nordeste do Amanhã. Uma coletânea de contos e artigos sobre esse novo movimento literário. Em entrevista Sá conta como o projeto foi estruturado:
De onde surgiu a ideia para criar o Sertãopunk?
O sertãopunk veio de uma indignação. O ano era 2019 e eu, G. G. Diniz e Alec Silva estávamos indignados com a mesma coisa: a forma como o Nordeste era retratado, muitas vezes, na ficção. A partir dali a gente começou a pensar em todas as coisas que já existiam e não concordávamos, daí veio o texto “Por que fazer o Nordeste sertãopunk?”, no Medium, que depois foi parar na coletânea da Amazon.
Abrindo sites de vendas de livros, como a Amazon, se você entrar na lista de mais vendidos verá que a maioria dos livros brasileiros são de não ficção. O que você acha que é preciso para fazer o público se interessar pela fantasia brasileira?
O Brasil tem uma larga tradição na ficção literária, crônicas e poesia. Acho que a régua pra medir a ficção começa daí, porque, muitas vezes, nossa comparação é com grandes nomes de outras áreas da literatura – e a autoajuda é uma delas. Parece bizarro pensar que um livro que basicamente te diga o que fazer pra sair de uma situação de merda consiga vender mais que grandes clássicos. Mas para pra pensar: o que mais se procura quando se está desesperado?
Ajuda.
A gente vive numa máquina que nos faz querer ser mais, melhor, mais lucrativo, mais bonito, harmonizado e os caralhos o tempo inteiro. Chegar na percepção de que aquela pessoa só quer alguém pra conversar, nem que seja um livro, faz sentido. Por outro lado, a ficção especulativa também oferece essa fuga de realidade, mas através do fantástico. Viver, nem que seja por um pouco, um mundo melhor do que o real, também faz parte desse sentido.
A diferença, pra mim, é que a quantidade de pessoas que se sentem necessitadas dos livros de autoajuda é maior do que de ficção. Mas aí não é algo que possa precisar.
O folclore nordestino é rico em personagens como o Quibungo e o Papa-Figo, o que você acha que tornou a região do Nordeste rica em lendas?
O nordestino é um povo muito desconfiado. A gente já passou por tanto na nossa história que fica difícil não ter um pé atrás com qualquer coisa e a natureza tá no meio disso.
A minha avó materna é benzedeira. Todos os dias antes de dormir, ela colocava eu e meu irmão pra rezarmos pras almas. De todo mundo. Gente que nunca conheci. Gente que só sabia o nome. Se era da família, era pra rezar. Minha avó dizia que via espíritos. Pra ela, eram luzes pequenas que passavam no telhado.
O que era via eram as luzes dos faróis que passavam na rua e entravam em casa.
Claro que esse é só um exemplo, mas pense: se alguém desconfia de algo, a primeira coisa é que ela crie uma teoria sobre. Nesse sentido, todas as regiões têm lá seu grau de contribuição. Isso vem muito do fato de cada pessoa ver a realidade de um jeito. No caso do Nordeste, existem milhões de formas de se enxergar a região, então, nada mais justo.
A aceitação do público entre obras de autores do eixo sul e sudeste é diferente em comparação ao do eixo Norte e Nordeste? Por que você acha que isso ocorre?
Eu não chamaria de “aceitação”, mas de mercado. Aqui em São Paulo, onde estou morando a dois anos, e em outros estados do Sul e Sudeste, o mercado literário é muito mais encorpado. Antes da pandemia, só não se ia em um lançamento de livros em São Paulo se não quisesse, porque tinham todos os dias, nos quatro cantos da cidade. Isso muda muita coisa. O fato daqui possuir um capital maior que as grandes cidades nordestinas também é um ponto essencial.
Por conta disso as pessoas acabam lendo sempre produções muito localizadas dentro de um eixo só. Porém, a literatura nordestina corre por fora. A gente consegue explorar mais possibilidades justamente por saber que o legal da arte são o improviso e criatividade, que já dominamos desde sempre. Então, quando um escritor nordestino bomba, ele não perde em nada em qualidade pros de outras regiões, aí a aceitação do público muda. Torto Arado tá aí que não me deixa mentir.
Voltando a falar do Sertãopunk. Como você sente que foi a recepção do público?
Te falar a verdade: no início, não achamos que iria durar nem dois meses.
O manifesto na Amazon, da forma que foi publicado, foi o ponto de virada. Até então, a gente era uma ideia que circulava na internet, que tinha rendido alguns contos e umas tretas. Quando a gente publicou o manifesto gratuitamente e levamos a conversa pro Twitter falando “isso aqui é sertãopunk, agora bora trocar uma ideia”, a coisa mudou de figura. Vamos fazer um ano de publicação na Amazon e já estamos indo pra 600 avaliações. Independente se são positivas ou negativas, é uma quantia enorme.
Mas ver, de fato, as pessoas falando, defendendo, escrevendo, criando, com o sertãopunk, é outro nível. Mais do que isso: vendo em nós uma forma de investimento pra criar coisas ainda mais legais, ajudar a crescer cada vez mais o Nordeste como potência na ficção. A gente já tem coisas em andamento e em negociação, mesmo com outras que caíram em 2020, mas, apesar disso, todas essas conversas só rolaram porque as pessoas abraçaram o sertãopunk. E isso, sim, cria um movimento.
Tem vontade de fazer mais obras voltadas com essa temática?
Desde que o sertãopunk nasceu, escrevi pouco. Publiquei Abrakadabra, independente (mas agora tá na Coleção Carcarás, da Corvus), O homem que cantava para os androides de carne, na coletânea Alma Artificial, da Cartola Editora e La Mazka, também pelo Carcarás da Corvus. Fora a coletânea.
Eu tô dando uma pausa porque já escrevo o dia inteiro. Sou redator numa agência de publicidade, meu ganha pão é a escrita. Muitas vezes, nem tenho saco ou energia pra fazer um conto. Mas acredito que minha obra está começando a se direcionar pra algo inteiramente sertãopunk. Quero explorar um pouco mais a pegada de terror psicodélico e realismo mágico de Abrakadabra e La Mazka, assim como quero deixar outras ideias mais reservadas.
Como a literatura nordestina pode combater a xenofobia?
Primeiro passo é não desistir. Se você sempre se perguntar “é isso que eles querem?” antes, vai saber a resposta certa sempre. As histórias do Nordeste devem ser contadas sempre.
O segundo: seja você sempre. Pode fazer uma história com uma pegada mais global e menos regional, mas não se pasteurize por conta disso. Cada um de nós tem um jeito de contar suas histórias. Com o tempo, dedicação e reflexão, cês vão achar os de vocês. Quando isso rolar, invistam.
O mais importante: invistam em vocês mesmos. Ser escritor não é barato. Entendam o livro como um produto e escrever como uma profissão, caso queiram trabalhar com isso. Juntem uma grana, deem um corre, mas paguem por revisão, capa, diagramação, tudo. Sei que não é fácil, mas isso vai te dar outro patamar na hora de apresentar seu trabalho. Estudem, conversem com pessoas do mercado e foquem em mostrar seu trabalho, seja em antologias ou Amazon. No meio do caminho vocês vão encontrar pessoas ruins e muitas, mesmo, incríveis. Lá na frente isso vai ser recompensado como um trabalho foda pra caralho que vai representar o Nordeste em todo o país.

Alan de Sá
É jornalista, escritor e copywriter.
Co-criador do sertãopunk.
A visão do leitor
Não é possível falar de literatura sem falar de seus principais aliados: os leitores. Espalhados pelo Brasil, são assíduos e buscam sempre novas experiências para alimentar a vontade de mergulhar em narrações criativas. Com as obras do Nordeste, a intenção não é diferente. Leitores desta região ou das demais reconhecem a importância da representatividade dentro do mercado editorial e se animam em contemplar cada vez mais essas histórias. Acima do prazer pela leitura, há muito aprendizado, como contam Gabrielle Batista e Débora Silva:
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Gabrielle Batista
Tem 26 anos é produtora de conteúdo do podcast Terminei, formada em publicidade e pós em docência em literatura e língua inglesa.
"A gente acaba ficando na mesmice, não tem uma mudança, não tem algo que você olhe e fale: 'Meu Deus, realmente, é algo novo. 'E quando você pega um livro de literatura nordestina, você fala: 'Cara, por que eu não li isso antes?”

Débora Silva
Tem 27 anos é farmacêutica e mestre em Ciência Farmacêuticas pela Universidade Federal de Ouro Preto. Trabalhou em indústrias farmacêuticas e hoje trabalha em uma importadora de insumos farmacêuticos.
"Acho que é muito essa questão da força que os escritores conseguem colocar, trazer nos livros a cultura do povo, que não é geralmente mesmo que seja uma história de ficção."
O que move o mercado?
O consumo, no entanto, leva em consideração a preferência por gêneros específicos. Uma pesquisa realizada pela Nielsen BookScan aponta que nos anos 2019 e 2020, os livros mais lidos pelos brasileiros são sobre Não Ficção Especialista e Infantil, Juvenil e Educacional.
Estes gêneros estimulam além da vontade de ler mais, pois exercitam a imaginação, são uma forma de escapar da realidade e estimular a curiosidade pelo que é desconhecido. Isso explica porque livros com tais conotações são os mais populares entre os leitores, que realizam divulgações de diferentes maneiras. Desde a recomendação clássica até perfis nas redes sociais que são próprios para agradar este público.
O Nordeste possui nove estados com diversos pontos de vista na literatura. Desde o maior, que é a Bahia, até Sergipe, que é o menor, as palavras nos livros encantam e atraem cada vez mais leitores de todos os cantos do Brasil. Propagar os costumes da melhor maneira possível se torna uma tradição para os nordestinos. Da antiga ou da nova geração, cada autor acrescenta um capítulo na história da região que está muito distante de seu fim.



